by Luli

Às vezes parece que andaram borrifando LSD no ar. O que mais poderia explicar tamanha alucinação coletiva quando um monte de gente séria cita a Pesquisa Nacional por Amostragem Domiciliar (PNAD/IBGE) para dizer que, com 32 milhões de usuários, a Internet se popularizou no país? Você certamente já deve ter ouvido que, em volume de acessos, o Brasil está no primeiro lugar na América Latina e no quinto lugar em todo o mundo.
Se não estranhou a posição no ranking, deve ser por uma das três opções:
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Você vive em um ambiente de alta tecnologia e não viaja muito pelo país;
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Você acredita que o mundo deve ser infinitamente tosco, tecnologicamente falando; ou
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Você, como eu e muitos, não deu muita atenção para o número.
Considerada a avalanche de informações a que somos submetidos diariamente, a terceira opção é a mais comum. Qualquer que seja o seu motivo, pare um pouco para examinar a situação: até dá para acreditar que sejamos os primeiros na América Latina, mas… QUINTOS DO MUNDO? Difícil de engolir, principalmente se considerarmos o nível de educação, o custo da infra-estrutura, o fato de existir pouquíssimo conteúdo em Português e o nível de renda da população, que faz do nosso o país mais rico da África, geograficamente deslocado.

O dado não está errado. Quem o cita só “esqueceu” de dizer que, segundo estimativas do censo de 2000, também somos o quinto em população, com cerca de 184 milhões. A pesquisa TIC Domicílios, do Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informação e da Comunicação (cetic.br) é bem mais pecisa. Ela diz, por exemplo, que 21,9% da população acima dos 10 anos de idade acessa a rede, o que nos coloca em uma posição mais fácil de acreditar: 62º do mundo, quarto lugar na Latinoamérica. Estamos atrás de potências como a Costa Rica, Uruguai e Guiana Francesa, países que temos dificuldade em lembrar das capitais. A propósito, você já ouviu falar de alguma cidade além de Caiena na ex-colônia do Caribe Francês?

Ao examinar outros números da mesma pesquisa chega-se, por exemplo, a 97,03% de domicílios com TV. Até aí, nada de novo. Mas que tal 19,3% de computadores de mesa, um número bem próximo do de freezers e levemente superior ao de consoles de videogames? Ou os desprezíveis 0,61% de notebooks ou 0,09% de PDAs? Para quem, afinal, você acha que vai o lépitópi de cem doletas?

Muitos podem argumentar que não é necessário ter um computador para se ter acesso a um, e não há como negar a eles certa razão. Afinal de contas, quase metade dos brasileiros usam essas máquinas, e quase um terço dos nossos compatriotas usam a Internet. Se essa notícia parece animadora, vale a pena examinar como essas pessoas usam a rede. Até porque cerca de 6% esteve online pela última vez há três meses, provavelmente em Agosto.
Para que você não perca a conta, sobrou 28% da população. Mas ainda não comemore. Alguns desses, acredite, acessam menos de uma vez por mês. Os que acessam diariamente, como eu e você, não chegam a metade desse número.
Isso dá o que pensar. A Internet é, pelo menos segundo as estatísticas oficiais, duas vezes mais popular que a TV a cabo. Mas não ficou claro se eles computaram aqueles “gatos”, ou cabos ilegais, que eu ouvi dizer que existem por aí, e que você também deve ter ouvido.
Enquanto isso, aquele outro aparelho digital móvel, que muitos ainda insistem em chamar de telefone celular, já ultrapassa um alcance de dois terços da população, passando de longe os telefones fixos, que não chegam à metade. Destes, uma fatia considerável (17,78%) tem acesso à internet. O número é muito grande, só fica atrás de rádio e TV. Ouvi um técnico da Receita Federal dizer que ele é superior ao montante de CPFs ativos, mas não achei uma fonte oficial na Internet para citar.
Com tanta gente a usar, é natural que a penetração social seja gigantesca. Mas confesso que alguns dados parecem ficção. Você sabia que ele é usado por 36,14% de pessoas com menos de 4 anos de educação formal, entre eles muitos analfabetos que mal sabem ler os números do teclado? Que tem penetração superior a 60% em todas as faixas etárias entre 10 e 44 anos? Que 28,97% das famílias com renda inferior a R$300 têm pelo menos um deles? Enquanto anunciam sem muita convicção que a Internet está entrando na classe C, você poderia imaginar que 43,14% da população nas classes D-E usam um desses aparelhos? Que 88,62% deles são pré-pagos, o tipo cujos serviços são obscenamente mais caros?
Mesmo assim, o número de serviços desenvolvidos para celulares é pífio. Você conhece algum sistema de m-commerce? Algum serviço móvel baseado em SMS? Tem gente, acredite, que acha que eles são uma bolha dentro da bolha. E investem em muitas tecnologias, sem saber direito com quem estão falando.
Se começasse minha carreira hoje, trabalharia com conteúdo para celulares.